segunda-feira, 21 de setembro de 2015

ACAMPAMENTO DA REVOLUÇÃO DE 1932

DIÁRIO DE CAÇADAS

A história desta caçada foi a seguinte:

Estava desta vez, disposto a aproveitar a permissão que sob duras penas consegui, e para tanto deixei tudo pronto desde a véspera, pretendia avançar muito mais do que da outra vez. Sai bem cedo, mas quando iniciei a subida o sol já estava  torrando tudo que se colocasse ao seu alcance. Mas isto fez com que eu me apressasse ainda mais, e em vez de atrasar a subida, tornou tudo ainda mais rápido. Não tinha lugar certo para parar, estava decidido que encontraria minha parada durante a caminhada, apenas queria ir um pouco mais além de onde  tinha ido antes e caso não fosse bom eu retornaria à um ponto já conhecido. 
Este morro vai dar no Pico do Cristal, em sua face voltada para o estado de São Paulo. Ao subir uma elevação, vi um lugar muito bem protegido, e fazendo uma ligação com as dicas encontradas no livro "Palmares pelo Avesso" percebi logo de pronto que seria um bom lugar para a instalação de um PC, ou de uma  enfermaria, ou até mesmo uma cozinha de campanha. Ao me aproximar vi também uns cortes no barranco em fileiras, dos dois lados da estreita garganta, lembrando também as imagens de fotos da Revolução de 32  me veio a cabeça  imediatamente a ideia de que  seria ali o lugar onde ficavam as barracas. Nesta hora a adrenalina já estava a mil, e já fui arrumando um lugar para deixar as tralhas. 
Ao passar o detector logo de cara ele deu um sinal bem forte e comprido, indicava também estar a uma boa profundidade, isto significa que era uma coisa bem grande. Comecei a cavar e dai a algum tempo apareceu brilhado, algo de alumínio. Um Cantil!!! pensei logo...mas ao tirar da terra era apenas uma caneca, e no sinal seguinte outra, daí já tinha certeza de que estava num acampamento, com cozinha e tudo mais, que  "desapertasse" os soldados como diria o Paulo Duarte. Confesso que a tensão estava no limite pois tive a certeza  de que dali sairia algo que eu nunca havia achado antes , para mim, isto  era apenas uma questão de tempo. Tomei o cuidado de fazer as buscas em linhas verticais para não deixar nem um centímetro sem pesquisar. 
Ao me aproximar de umas valas, começaram a aparecer os vestígios da batalha, como projéteis e capsulas. Na frente de onde as barracas ficavam em fila dupla, havia uma grande trincheira voltada para  Minas Gerais, e no morro a esquerda também, isso me  mostra  estar numa posição paulista. Com o calor do meio dia logo notei que a água que eu dispunha não seria suficiente para permanecer ali o dia todo, e ficar sem água no meio do nada, pode ser bem perigoso, já que para voltar eu precisaria de no minimo uma hora e meia de dura caminhada, então comecei a economizar. 
Lá pela uma hora ou pouco mais, já tinha terminado de fazer uma linha lateral e estava terminando a da frente, onde havia a trincheira frontal e de onde só cartuchos saiam da terra, dei uma paradinha para um lanche  rápido e iniciei a linha do meio e a do lado direito,. Neste momento a esperança de uma caçada que parecia ser fantástica começou a se desfazer. Talves nem tanto pelos achados mas muito mais pela água quase acabando e  uma sede que junto ao sol forte, quase me matava. 
Quando fui chegando perto dos cortes no barranco onde supostamente ficavam as barracas o detector deu um sinal forte  e como tudo ali, diferente do Gomeirinha, estava a mais de quinze a vinte centímetros de profundidade, aí as coisas começaram a melhorar, e achei um projétil enorme, de  um calibre que eu nunca antes tinha achado.  Num dos  próximos sinais saiu uma cinta de cobre, do projétil de canhão, achado este, também inédito.
 Avancei um pouco mais e um cabo de talher apareceu a uma boa profundidade. Fui então para dentro do "corte" e cavava um sinal forte , ferroso e profundo, mesmo o detector de metais estando configurado para eliminar metais ferrosos, isto significa que era uma coisa bem grande, e ao chegar nela, vi sua curva e pensei que finalmente tinha achado um projétil de canhão 75mm, e era mesmo, só que aquele, para o meu azar e para o dos soldados não havia falhado e era assim um grande estilhaço todo retorcido. Constatação bem triste é que ele estava bem onde fiava a barraca, senti pena de quem estava ali naquele momento. Olhando um pouco acima, vi dois buracos grandes e fui verificar, achei mais uma cinta de cobre e inúmeras bolinhas de chumbo que são o recheio mortal dos projéteis de canhão, era então aquelas grande feridas na terra, bem acima das barracas, o resultado das explosões. Desci, pois a água já estava no fim, e queria pelo menos chegar ao final do acampamento.
 Agora estava procurando no mesmo lugar, onde tinha achado o grande estilhaço e bem ao lado estava cavando um sinal muito agudo, tirei a terra e não vi nada, passei o pin pointer e ele estava na "flor da terra" parecia um pino de panela de pressão, mas  era a "cereja do bolo" daquela caçada, o achado que faria daquela uma caçada para ficar para sempre na memória, um fuse inteiro, de latão, dividido em duas partes, mas ainda juntas, mesmo depois da explosão. Euforia total!! ainda que  estando sozinho naquele fim de mundo. 
Segui em frente até o fim do acampamento, mais alguns achados, nada de excepcional. Já eram mais de três horas  e comecei a procurar uma mina d'água, vi do lado de Minas uma grota e duas banheiras onde alguns animais bebiam água. Decidi que no último gole de água eu desceria lá, com todo o equipamento, e caso houvesse mesmo o liquido precioso eu voltaria, caso não, eu teria que ir embora  mesmo a contra gosto. Chegando lá, vi que não tinha nada além de uma lama e uma água podre nos cochos. Não podia fazer nada alem de seguir rumo à  estrada, e o mais rápido possível pois o cantil estava seco e o sol muito forte. Chegando numa lanchonete depois de uma boa caminhada, com a garganta seca, abasteci o cantil e tentei subir novamente, agora visando o Gomeirinha, mas já era um pouco tarde e resolvi retornar para casa.

O CAMINHO

 Logo no início uma verdadeira muralha a frente

 Vista para o lado de São Paulo

 Gomeira e Gomeirinha

 Minas Gerais 

 São Paulo novamente

 Esta foto dá noção da dificuldade  devido ao  relevo muito íngreme.

O ACAMPAMENTO

 Vista para o lado de SP. Ao fundo esta a cidade de Cruzeiro

 Em cada uma das encostas há uma linha de cortes no barranco que supostamente era onde ficavam as barracas.
Uma visão um pouco mais afastada.

 Vista para o lado de Minas Gerais, Bem ai uma grande trincheira guarnecia a retaguarda. 

 Ao fundo o Pico do Cristal

 Este é um dos cortes no barranco

 Aqui mais três.

 Vista a partir do fundo do acampamento, mirando o lado mineiro.

OS ACHADOS

 Um Fuse de cobre ou bronze  provavelmente de granada de morteiro.


 Que emoção ao pega-lo!!

 Estilhaço de projétil de canhão ou granada de morteiro estava bem onde havia uma barraca

 Duas Canecas  de alumínio que de tão grande podiam ser usadas como marmitas também.


Todos os achados ainda como saíram da terra

E DEPOIS DA LIMPEZA...







 Projéteis de fuzil ou metralhadora e bolas de chumbo que são parte do recheio das granadas de canhão e ao explodir funcionam como os estilhaços.

 Projétil de revolver de calibre ignorado



 Possivelmente um botão ou a capa dele

 Arte nas trincheiras. Já achei várias destas tampas de alumínio, gostaria de saber o que elas tampavam, espero ainda achar um vidro com uma.

 Cabo de talher da época.

 Uma grata surpresa, é sempre muito bom achar qualquer coisa da revolução de 1932 ainda mais uma que tenha algum tipo de logotipo ou marca que facilite sua identificação, sua época e seu fabricante.

 Ao lavar o achado apareceu este logotipo

 Temos aqui a sua marca que é um losangulo com um martelo e as  letra abaixo: M. R.(Marca Registrada) É imensa a curiosidade em saber quem é o fabricante, se alguém souber por favor coloque nos cometários.

 Não acabaram as surpresas...

 Dentro, também há números.


 Em cima um 23 escritos na vertical e a baixo 68 na horizontal. O que indicariam estes números?








4 comentários:

  1. Celso, você quase acertou, o nome correto é cinta de forçamento. Como o corpo da granada é de aço, é necessário que exista a cinta de metal mole para que ela se molde ao raiamento do cano do canhão promovendo a vedação no momento do disparo garantindo que a pressão fique restrita na parte de trás do projétil e que o mesmo adquira o giro necessário para a estabilização da trajetória. No final ainda funciona como estilhaço independente do corpo da granada, não havia pensado nisso. Muito interessante.

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  2. Celso: imagino a sensação de estar num lugar onde uma "bala de canhão" ou uma granada atirada por um morteiro, tenha caído e certamente provocado injurias ou morte de pessoas. Refiro-me aos pedaços do projétil de artilharia que você encontrou no local onde uma cava indica que ali havia uma barraca.
    O projetil de chumbo, certamente de um cartucho de revolver que você encontrou, tem fundo côncavo (para, ao dilatar, aderir melhor ao raiamento da arma e vedar os gases) pela régua de referencia tem cerca de 23 a 25 mm de comprimento. Você mediu o diâmetro desta "bala" ?
    Claramente visíveis os canais de graxa do projétil.

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    1. Luiz, pela configuração da ponta do projétil eu chutaria que se trata de um .38 S&W (.38 curto), mas nada impede que seja um .38 SPL.

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  3. De fato Vandeir, concordo contigo. A ponta é característica de um projétil .38 de chumbo.
    Celso, verifique se há vestígios/resíduos de cortiça dentro das tampinhas de alumínio. Se houver certamente são tampas de garrafas de bebida gasosa, um refrigerante que provavelmente foi enviado à tropa.
    A marca do martelo dentro do losango é comum em muitos utensílios de alumínio como caldeirões de cozinha, por exemplo, utilizados pelos paulistas. Resta descobrir o fabricante.

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