segunda-feira, 25 de maio de 2015

DESENTERRANDO A HISTÓRIA NA SERRA DA MANTIQUEIRA A "MURALHA PAULISTA".

Quando eu cheguei no alto do morro e vi que o pin pointer estava com problema, disparando sozinho, já soube que seria um bom dia de caçada. Por aqui é sempre assim: quando tudo começa mau e você não desiste nem desanima, pode esperar que boas coisas te aguardam sob a terra.
Logo no inicio da caminhada notei que desta vez teria companhia nesta aventura, uma cachorrinha me seguiu  até lá em cima, e permaneceu ao meu lado o tempo todo, sem eu chamar ou mesmo atraí - la com algum tipo de alimento, acho que ela foi com a minha cara simplesmente. Voltando ao pin pointer, achei que fosse a bateria e então troquei por uma nova mas nada de resolver o problema, daí dei uma batida forte nele contra a terra e pronto tudo resolvido, novinho em folha! Acho que nem a assistência técnica da fabrica não teria feito um reparo tão perfeito. Deve ter sido alguma sujeira que entrou nele e ficou na sua área sensível, ao bater ela saiu de lá.
 As condições do mato estão melhorando com o frio e as vacas no pasto ajudam neste fator mas elas são sempre um risco aos objetos, um pisão e já era...já encontrei varias vítimas pelo caminho.
Voltei ao exato lugar da ultima caçada, só que desta vez tentei um pouco mais acima e depois um pouco mais abaixo da área antes pesquisada, deixei mais vezes o detector configurado em "all metal"  e a quantidade de estilhaços de bombas que eu encontro chega me  a dar uma sensação estranha pois imaginar soldados ali naquele lugar, que apesar da beleza da natureza, é totalmente inóspito ao ser humano, sofrendo sob fogo cerrado me levam a conclusão que só heróis mesmo, fariam isto por um ideal cívico. Coisa praticamente impossível, sequer de  entender, nos dias de hoje, em que a maioria só pensa em si próprio e em levar vantagem em tudo e sobre todos.
 Algumas horas de caçada e já havia juntado uma boa quantidade de capsulas e munições não deflagradas, aí começaram a aparecer uma coisas diferentes e bem legais como uma tampa de medicamento (?) já achei várias destas mas ainda quero achar uma  com o vidro. Também achei uma ponteira de alça de bolsa ou embornal  feita de cobre, um objeto de alumínio que creio ser um tipo rebite, um grande estilhaço de ferro, e um outro pequeno de cobre, até que finalmente veio a "cereja do bolo": mais um distintivo do Segundo Batalhão de Caçadores da Força Pública de São Paulo que, até onde sei, é o atual 2º BPM/M.
É engraçado pois quando a gente passa horas achando só capsulas os olhos ficam treinados nisso então ao abrir o buraco sempre vou procurando aquela imagem que já esta gravada na  mente e ai aparece um lindo distintivo no meio daquela terra toda .. é realmente emocionante! Seu metal está perfeito, apesar de estar ali a minha espera por mais de oitenta anos. Um dos canos da arma está quebrado mas para mim isto o valoriza (historicamente) ainda mais, porque com certeza ele se quebrou no momento em que o soldado rastejou ou até mesmo foi arrastado por seu companheiros após um ferimento grave.
Bem... o texto tá ficando longo demais, então deixo que as fotos acrescentem o restante...

O distintivo do Segundo Batalhão de Caçadores da Força Pública de São Paulo, é o terceiro igual este que eu acho, no momento exato da descoberta.

 Todos os achados da caçada

Munições intactas (só para lembrar aos ranzinzas: + de oitenta anos em baixo da terra ;-)

Ponta de alça de bolsa ou embornal, feita de cobre ainda guarda por entre sua chapa  restos de couro.

Acho que isto é um tipo de rebite de alumínio. Se alguém tiver ideia do que ele podia prender peço que nos diga.Na verdade nem sei se ele é da época mas o lugar que ele estava e a profundidade sugerem que sim.
Tampa (alumínio) Já devo ter achado uma sete iguais a esta.

 Enorme estilhaço de bomba aérea ou granada de morteiro (mais ou menos uns dez centímetros)

Estilhaço de cobre muito comum por lá. Também necessito de informações sobre ele se alguém souber... 

Arte nas trincheiras?

Projéteis, uns nitidamente acertaram alguma coisa.

Frente 

Verso
Um achado muito especial, não é todo dia que ganhamos  um presente desses. 


APÓS A LIMPEZA:






O LUGAR



Minha amiga  fiel durante toda caçada, qualquer barulhinho na mata ela estava lá atenta, me deixando muito mais tranquilo no meio da mata fechada. Espero contar com sua companhia mais vezes (apesar dela ter comido quase todo meu lanche) rsrs.


Imagine o que deve ter se passado aqui

7 comentários:

  1. Eu até queria Alisson, mas acho que ela tinha dono, quando desci, ela sumiu na lanchonete.

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  2. Celso,... eu novamente !
    Consegui um exemplar do livro do Celso Luiz Pinho O TUNEL DA DISCORDIA, e nele há um mapa, embora sem escala, que posiciona as trincheiras ditatoriais e as constitucionalistas, na região do Túnel.
    Percebe-se, por este mapa, que na região imediatamente acima do túnel haviam muitas trincheiras paulistas voltadas para o lado mineiro. Você prospecta é nestes locais ? Você tem este livro ? Se não tem, quer que te envie uma copia deste "mapa" por e-mail ?. Esta ilustração é denominada no livro de O Plano Lery de ataque. Lery era o comandante das tropas getulistas.
    Tropas getulistas marcadas com X e paulistas com O.
    Outra coisa, você também pesquisa na área da Fazenda Batedor ? Ali os confrontos foram violentos, já quase próximo a data em que os paulistas se retiraram do túnel. E no topo do Cristal, onde ficava uma bateria de artilharia dos ditatoriais ?
    Desculpe incomoda-lo mas a curiosidade é muito grande.
    abraço
    Luiz Traldi

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    1. Luiz, sempre pensei na possibilidade do Celso pesquisar na posição desta bateria, certamente deve haver estojos de artilharia por ali. Não deve ter muitos estojos de infantaria já que estavam a uma distância maior. De qualquer forma seria interessante tentar chegar a uma posição mais exata possível já que caminhar naquela serra não deve ser uma tarefa fácil e sem ter uma área aproximada qualquer tentativa pode representar muito esforço para pouco resultado. Uma pena não termos mais combatentes vivos para identificar tais locais.

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  3. Celso, mandei os "mapas" por e-mail. Abraço e obrigado por nos presentear com este seu trabalho de grande alcance histórico.
    Luiz Traldi

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  4. Luiz, Celso, Alisson, Vantuir e demais. É certa a informação de que os ditatoriais partiram, rumo ao Cristal,da Fazenda São Bento. Dá para imaginar o quanto foi difícil a escalada. Até então, os mineiros não conheciam o acesso e floram guiados pelo capataz da Fazenda São Bento. Parte do armamento foi em lombo de burro e parte, a pé. Quando eu estava pesquisando para escrever "O Túnel da Discórdia", refiz o mesmo caminho e, curiosamente, o local parece o mesmo de.noventa anos atrás.

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  5. Em tempo: No relatório do Coronel Lery está anexado mapa mais detalhado, elaborado em 1932. Se houver interesse eu posso enviar via email (cluizpinho@uol.com.br).
    Abraços a todos.

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